quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Visão




02.10.03

As folhas brilhantes e o zumbido ensurdecedor que por vezes escutamos, não têm muito impacto na nossa percepção da realidade quando gostar de alguém sem sentir dor é um facto. Os movimentos que nem sempre refinados foram tornam-se suaves, quase sem existência para um mundo tridimensional: o “aqui” silencia. O zumbido de outrora parou, pois agora o dom manifestado é esse: o de parar o que retira a harmonia à vida que este ser, que posso ser eu, experimenta. A essência toma então o lugar de tudo!
O mar, os rios, as árvores, a natureza com todas os seus elementos constituintes fazem o humano apreciá-la. Mas o que é isso? Moscas, mosquitos, borboletas e joaninhas... O som de uma abelha começa a causar influência na corrente dos pensamentos percebidos e recriados em cérebros humanos. Será que ela não entende que o vidro não a deixa transpor esta e passar a outra realidade, onde não nos encontramos ambas? Fica perto de mim mas nem por isso pára. Não pára lá porque está acompanhada por esta humana pensante... Quer chegar a algum lugar?! Rancor, redemoinho, raiva encarnada, rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr Pára!
Quem és tu? Como existes se penso não mais te querer? Como existes se não te criei (pelo menos não farias sentido agora). Quem queres? Silêncio. Música de fundo! Sózinha no meio de conhecidos, de intrínsecos familiares sem outra solução senão separarem-se para se sentirem... Lágrimas secaram. A humidade ficou em Sintra e é de lá que vem quando faz uma ou outra aparição! Eléctricos desordenados com descargas de falta de comuicação e manutenção. União (europeia), seremos tão diferentes entre nós como somos dos outros? Será a nossa aparente semelhança um mero concenso psicológico, ambiental e genético? Então qual é o “mal”? Qual é o “problema”? O que querem designar tais palavras que denunciam um elemento estranho, ou no mínimo negado? Qual é, afinal, o grande Mistério da criação, da existência, da realidade?
Amor, braço, tacto, carícia, beliscão, beijo, olhar. Movimentos, gestos, processos, fluxos, onde se diferem ou onde se igualam? Por um lado, quem dá, necessita... quem recebe dá. Quem não dá não recebe e quem necessita pede, mas quem não pede não recebe! Por outro lado, tu observas o duplo que existe em mim, eu vejo o duplo de todos os que me rodeiam, mas nem tu nem eu testemunhamos o duplo que há em cada um de nós. Essa incapacidade é bastante específica, não vos parece? Por isso terá por detrás uma vontade que alimenta tal vestimenta cinza-negra de obscuridade, de modo a existir sem ser percebida por aquele que a criou em primeiro lugar. Parece lógico, não? É como esconder dinheiro num local bem desadequado para o encontrarmos em clima de surpresa, de pequeno milagre, de aparição, ou de novidade aparente.
O fluxo de criação-existência, duas faces da mesma moeda, só pode fluir ou inibir-se de o fazer, tal como a estupidez é uma resistência à inteligência! Este fluxo pode demonstrar o amor, o ardor, o sexo, a paixão, o êxtase, a iluminação... Pode manifestar-se em simplicidade e complicação!
Mas, apesar dele (o fluxo) estar sempre presente, pois vivemos aí, o ruído pode sempre voltar se lhe dermos espaço, se o acarinharmos. E podemos fazê-lo é “bom”, sabe bem, é agradável, acarinhar elementos da nossa vida, quaisquer que sejam. Afinal, vamos escolhendo os que queremos acarinhar no momento para o fazer com concentração... Será? Apetece chorar, mas não há necessidade de tal. Mas chorar é belo e acarinho um final de vida assim... com lágrimas de leveza. Nesse momento poderei sentir que a ofensa não existe, pois permiti-me através da própria vida soltar o impulso pois não sei, nem soube, mais nem menos que ninguém, mas soube-o de forma única, singular, irrepetível!
Mas nesse momento oiço o ruído que há já uma vida se tinha calado, mas que agora voltou para me cumprimentar. Preto e vermelho. Essa é a ambiência desse momento muito potente e intenso. E de repente vislumbro esse ruído e essas cores como o início de uma nova vida noutro lugar, de onde nunca parti mas onde estou agora a chegar. Fecho os olhos mas eles permanecem abertos. A visão é a de um falcão com asas de fogo numa noite sem luar.

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